Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Dorminhoco

Só assuntos sérios. Só quando estou acordado.

Dorminhoco

Só assuntos sérios. Só quando estou acordado.

Março 26, 2018

Uma geração sem Bairro Alto

 

Não sei se alguma vez conheci o Manuel Reis. Acho que sim, quando era pequeno. Infelizmente, antes dos meus 14 anos não me interessava nada conhecer a maior parte das pessoas que o meu pai me apresentava. Por isso, não me lembro.

 

Tenho pena. Tudo o que sei sobre ele e o seu trabalho, sei através do meu pai. Sei que o Manuel Reis e mais uns quantos bravos agitaram as coisas nos anos 80. Sei que com sítios como o Pap’Açorda e o Frágil lançaram as bases para um cocktail urbano tremendamente difícil de confecionar: uma identidade. A noite lisboeta – ou se a tratarmos pelo nome da altura, o Bairro Alto – teve uma personalidade que permite, àqueles que a viveram, ainda hoje reconhecerem-se na rua. Afinal de contas, eles estiveram lá.

 

Não é difícil ser saudosista em relação a esse Bairro Alto que nunca foi meu. Nós, os jovens de hoje, não temos um Frágil. Não há um Targus onde possamos encontrar a versão jovem do meu pai e dos amigos dele. O Bairro Alto há muito que perdeu o charme, e o único sítio que poderia realmente ser nosso, o novo Cais do Sodré, foi tomado por uma mistura de turistas, hipsters que têm “uns projectos” e CEO’s de start-ups com muito start e pouco up. Até o Pap’Açorda se mudou para lá – e já não é a mesma coisa.

 

Claro que muito mudou e melhorou. Mas não há um lugar ao qual a nossa geração possa chamar "casa" da mesma maneira que os de 80 chamavam ao Bairro Alto. Sei que o novo PRD, o novo MEC, o novo NMG, o novo Quevedo e os outros andam aí algures. Mas às vezes não tenho a certeza se sei onde os encontrar. Talvez eu seja despistado. A verdade é que sempre pensei que seriam pessoas como a Manuel Reis a indicar-me a morada certa – ou mesmo a construir uma nova. Hoje ficou mais difícil.