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Dorminhoco

Só assuntos sérios. Só quando estou acordado.

Dorminhoco

Só assuntos sérios. Só quando estou acordado.

Março 22, 2018

O Facebook não é a notícia

 

Muito se tem falado sobre a Facebook, dada a sua importância no caso Cambridge Analytica. O problema é que o que é relevante no caso Cambridge Analytica não se prende com a Facebook. O caso Cambridge Analytica é sobre o processo de campanha eleitoral moderno - especialmente no que toca à influência das consultoras políticas. 

 

É raro termos a oportunidade de espreitar o funcionamento destas consultoras na prática e é esse o principal valor do brilhante trabalho dos jornalistas do Observer e do Channel 4: revelações de tal forma gráficas que trazem o assunto para a ordem do dia. Trata-se de um assunto importante, especialmente quando se pensa na relação entre o financiamento e regulamentação das consultoras e o impacto eleitoral das mesmas. A Cambridge Analytica só pôde desenvolver o seu trabalho graças ao investimento multi-milionário da família Mercer, cujo consultor político, Steve Bannon, foi chefe de campanha de Donald Trump. O dinheiro investido pelos Mercer não entra para a conta oficial dos gastos da campanha (que é limitado pela lei) mas é nem por isso deixa de ser legal (graças às Super Pacs – grupos independentes que podem fazer campanha desde que não harmonizem as suas acções com as do candidato). 

 

Nada disto é novidade. Mas dado o valor empírico das informações reveladas, esta seria a ocasião perfeita para se relançar o debate sobre a regulamentação e o financiamento das campanhas eleitorais. Em enquadramentos como o das presidenciais americanas, a competição é facilmente mantida, pois só há duas forças em jogo, ambas bem estabelecidas - Democratas e Republicanos. Mas noutros países, como alguns daqueles em que opera a Cambridge Analytica, o caso não é assim tão simples e facilmente a competição política se pode tornar ainda mais desigual do que tradicionalmente já é.

 

big data, a Facebook e consultoras como a Cambridge Analytica fazem parte do processo eleitoral moderno. O desafio é enquadrá-los na sociedade democrática, sem que a palavra democrática se torne um mero adereço retórico. É este o desafio que devia estar no centro das atenções durante estes dias em que se fala do caso Cambridge Analytica. Ninguém precisa de mais uma discussão trivial sobre os perigos do Facebook.