Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Dorminhoco

Só assuntos sérios. Só quando estou acordado.

Dorminhoco

Só assuntos sérios. Só quando estou acordado.

Abril 30, 2018

O problema americano do inimigo

 

A ausência de inimigos é uma questão com que a Administração Trump se continua a debater, no plano externo, mais de um ano depois de eleita. Não é uma questão insignificante. Em política, é essencial ter inimigos que sirvam de bode expiatório para os problemas que certa administração não pode – ou não consegue – resolver. O inimigo externo é essencial para que os efeitos políticos e eleitorais de problemas internos sejam amenizados. É aquela ameaça à unidade nacional que pode manter e amplificar o eleitorado conquistado, mobilizando o povo para uma causa que é, em si mesma, vista como “de sobrevivência”. (E que, no caso americano, é também necessária para satisfazer a indústria do armamento.) A sua ausência é um problema que precisa de ser resolvido. 

 

Percebendo o cansaço mediático e social em relação ao Médio Oriente depois do envolvimento em 4 guerras extenuantes, Donald Trump teve esperança de mudar o centro das atenções para a Ásia. O seu mais recente candidato a inimigo externo foi, então, a Coreia do Norte. Tinha tudo para dar certo: um “louco” mauzão como líder, um “reino eremita” que convoca a imaginação pública, e armas de destruição maciça, veja-se bem, comprovadas.

 

Aquilo com que Trump não contava era que os exóticos norte-coreanos fossem, afinal, pessoas, como os americanos, que podem ter ideias inteligentes. A recente reunião de sucesso entre líderes norte e sul-coreanos foi a cereja no topo do bolo de uma inteligente movimentação diplomática norte-coreana que deitou por terra as aspirações de Trump. Os EUA continuam a ser o principal adversário da Coreia do Norte, que não dispensa um bom inimigo na sua propaganda interna. Mas a Coreia do Norte, agora, já não pode ser o principal inimigo dos EUA – isso implicaria os EUA estarem contra os desenvolvimentos rumo à pacificação da Península Coreana, contra a prometida abolição do programa nuclear, e principalmente contra um país que é o novo amigo do seu aliado, a Coreia do Sul. 

 

As cartas foram bem jogadas pelo Marechal Kim Jong-Um, que ganhou um amigo, sem perder qualquer inimigo. Do mesmo sucesso não pode gabar-se Donald Trump, que continua a zeros. O presidente americano bem podia contar com uma distracção externa, dados os sucessivos problemas internos da sua administração. Mas por agora, não há inimigo que o ajude. 

Abril 13, 2018

As causas de Rio

 

Vasco Pulido Valente, numa entrevista concedida ao DNA, em 2001:

DNA - A coligação entre o PS e o PSD podia resolver hoje o atraso de Portugal?

VPV – Vou dizer uma heresia política, mas acho que sim. A única maneira de se fazerem as grandes reformas é um novo bloco central...

 

Rui Rio, esta quarta-feira, em Santa Maria da Feira:

“Colocar o interesse de Portugal à frente é justamente estar disponível para fazer com os outros aquilo que só com os outros consegue ser feito.”

“Os partidos devem entender-se para fazerem um conjunto alargado de reformas.”

 

Continua Vasco Pulido Valente:

VPV – ..., o grande problema é outro.

DNA – Quem o dirige?

VPV – Como é óbvio. Quem será capaz de o dirigir? (...) Precisamos, num sentido figurado, de “homens providenciais”. Os próprios partidos criam cenários para que surjam homens com uma aura de poder, mas os “homens providenciais” trazem sempre grandes causas. A revolução comunista para o dr. Cunhal, a democracia para o dr. Soares, a desmilitarização do regime e o direito da direita a governar para o dr. Sá Carneiro, a regularização económica para o dr. Cavaco. Foram as quatro grandes causas do pós-25 de Abril.

 

Gostava de continuar a sequência e introduzir aqui um excerto de Rui Rio a falar sobre as grandes causas que se propõe a defender. Não é fácil. Sobre a importância de reformas e a utilidade de um bloco central, já vimos que Rio está de acordo com Vasco Pulido Valente. Mas quanto à sua base teórica, o líder do PSD não tem propriamente aberto o jogo. A pergunta permanece: ao que vem Rui Rio exactamente? Qual é a sua “grande causa”? Será ele, no final das contas, um "homem providencial"?

Abril 07, 2018

Sobre a questão de levantar cedo

 

Sei de pessoas que ainda hoje acordam cedo e não entendo por que o fazem. Provavelmente, não são dorminhocos como eu. Eu gosto muito de dormir e faço parte dos que acreditam que são necessárias razões fortes para se sair da cama. Pessoalmente, só aceito mesmo uma: o almoço.

 

O almoço é uma actividade nobre. Na minha opinião, deveria estabelecer o parâmetro de razoabilidade para se encarar a luz do dia. Acordar só porque é de manhã e “já são horas” carece de vida. É um acordar branquela. Pelo contrário, acordar para almoçar é como entrar no Lux às 4 da manhã. A luz é doce, pincelada de violeta; a comida, como a música, uma nuvem fofa, que acama a nossa chegada.

 

Além disso, acordar para almoçar permite a fuga à pior das refeições: o pequeno-almoço. Nunca algo de mau proveio de uns jaquinzinhos com arroz de tomate, mas sei de vários divórcios concretizados entre torrada e chá preto. Por isso, mesmo quando vou para a cama cedo, faço sempre questão de dormir pelo menos até ao meio-dia e meia. Há refeições cujos perigos não valem o nosso querido sono.

 

Como se não bastasse, acordar para almoçar é ainda um processo instintivo. O cheiro de uma empada de aves acabada de sair do forno desperta a curiosidade. Abre-se um olho. Segue-se o chamamento até à cozinha. Quando se dá por ela, já não há nada a fazer: estamos acordados.