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Dorminhoco

Só assuntos sérios. Só quando estou acordado.

Dorminhoco

Só assuntos sérios. Só quando estou acordado.

Março 29, 2018

A expulsão de diplomatas russos é precipitada

 

Tal como a maioria dos europeus, estou convencido de que a Rússia é responsável pelo envenenamento de Sergei e Yulia Skripal. Acho que tem tudo para ser verdade – o motivo faz sentido, o método coincide e o comportamento encaixa num padrão de assassinatos já conhecido. O problema é que, para reagir de forma assertiva e justa, as convicções não chegam. É preciso saber o que se passou.

 

Mesmo que o Novichok tenha vindo da Rússia (como é provável), continua a não ser certo o papel do estado russo no ataque. Se o Kremlin teve algum envolvimento, então estamos perante uma participação em crimes gravíssimos. No entanto, se o Kremlin não teve nada que ver com a ordem para matar (a hipótese de grupos alheios ao estado se terem apropriado do Novichok é perfeitamente válida), então trata-se de negligência da sua parte – pois o armazenamento, a segurança e o desmantelamento de agentes químicos não são assuntos para brincadeira. Ambas as hipóteses – quer a participação no crime, quer a negligência – nos levam a atribuir culpas ao estado russo. Mas estas são distintas e cada uma pede uma resposta adequada. Caso o Kremlin não esteja envolvido e o ataque tenha tido origem, por exemplo, nos oligarcas e nas redes de crime organizado, a expulsão de diplomatas é uma medida desproporcional e ineficaz. Nesse caso, seria bem mais apropriada a aprovação de um novo pacote de sanções. 

 

Claro que se percebe a decisão de vários países ocidentais de expulsar diplomatas, até porque há um timing político e mediático para acções deste nível. Mas esta é necessariamente uma decisão precipitada, pois corre o risco de não ser apropriada ao tipo de responsabilidade do Kremlin pelo envenenamento. Para um juízo pautado pelo bom-senso, as conclusões finais das investigações em Salisbury e na Rússia seriam necessárias. Assim sendo, a decisão portuguesa de chamar o seu embaixador para consultas é tecnicamente mais adequada do que a dos seus parceiros. Mesmo que seja problemática a vários outros níveis.

 

 

Março 26, 2018

Uma geração sem Bairro Alto

 

Não sei se alguma vez conheci o Manuel Reis. Acho que sim, quando era pequeno. Infelizmente, antes dos meus 14 anos não me interessava nada conhecer a maior parte das pessoas que o meu pai me apresentava. Por isso, não me lembro.

 

Tenho pena. Tudo o que sei sobre ele e o seu trabalho, sei através do meu pai. Sei que o Manuel Reis e mais uns quantos bravos agitaram as coisas nos anos 80. Sei que com sítios como o Pap’Açorda e o Frágil lançaram as bases para um cocktail urbano tremendamente difícil de confecionar: uma identidade. A noite lisboeta – ou se a tratarmos pelo nome da altura, o Bairro Alto – teve uma personalidade que permite, àqueles que a viveram, ainda hoje reconhecerem-se na rua. Afinal de contas, eles estiveram lá.

 

Não é difícil ser saudosista em relação a esse Bairro Alto que nunca foi meu. Nós, os jovens de hoje, não temos um Frágil. Não há um Targus onde possamos encontrar a versão jovem do meu pai e dos amigos dele. O Bairro Alto há muito que perdeu o charme, e o único sítio que poderia realmente ser nosso, o novo Cais do Sodré, foi tomado por uma mistura de turistas, hipsters que têm “uns projectos” e CEO’s de start-ups com muito start e pouco up. Até o Pap’Açorda se mudou para lá – e já não é a mesma coisa.

 

Claro que muito mudou e melhorou. Mas não há um lugar ao qual a nossa geração possa chamar "casa" da mesma maneira que os de 80 chamavam ao Bairro Alto. Sei que o novo PRD, o novo MEC, o novo NMG, o novo Quevedo e os outros andam aí algures. Mas às vezes não tenho a certeza se sei onde os encontrar. Talvez eu seja despistado. A verdade é que sempre pensei que seriam pessoas como a Manuel Reis a indicar-me a morada certa – ou mesmo a construir uma nova. Hoje ficou mais difícil.

 

Março 22, 2018

O Facebook não é a notícia

 

Muito se tem falado sobre a Facebook, dada a sua importância no caso Cambridge Analytica. O problema é que o que é relevante no caso Cambridge Analytica não se prende com a Facebook. O caso Cambridge Analytica é sobre o processo de campanha eleitoral moderno - especialmente no que toca à influência das consultoras políticas. 

 

É raro termos a oportunidade de espreitar o funcionamento destas consultoras na prática e é esse o principal valor do brilhante trabalho dos jornalistas do Observer e do Channel 4: revelações de tal forma gráficas que trazem o assunto para a ordem do dia. Trata-se de um assunto importante, especialmente quando se pensa na relação entre o financiamento e regulamentação das consultoras e o impacto eleitoral das mesmas. A Cambridge Analytica só pôde desenvolver o seu trabalho graças ao investimento multi-milionário da família Mercer, cujo consultor político, Steve Bannon, foi chefe de campanha de Donald Trump. O dinheiro investido pelos Mercer não entra para a conta oficial dos gastos da campanha (que é limitado pela lei) mas é nem por isso deixa de ser legal (graças às Super Pacs – grupos independentes que podem fazer campanha desde que não harmonizem as suas acções com as do candidato). 

 

Nada disto é novidade. Mas dado o valor empírico das informações reveladas, esta seria a ocasião perfeita para se relançar o debate sobre a regulamentação e o financiamento das campanhas eleitorais. Em enquadramentos como o das presidenciais americanas, a competição é facilmente mantida, pois só há duas forças em jogo, ambas bem estabelecidas - Democratas e Republicanos. Mas noutros países, como alguns daqueles em que opera a Cambridge Analytica, o caso não é assim tão simples e facilmente a competição política se pode tornar ainda mais desigual do que tradicionalmente já é.

 

big data, a Facebook e consultoras como a Cambridge Analytica fazem parte do processo eleitoral moderno. O desafio é enquadrá-los na sociedade democrática, sem que a palavra democrática se torne um mero adereço retórico. É este o desafio que devia estar no centro das atenções durante estes dias em que se fala do caso Cambridge Analytica. Ninguém precisa de mais uma discussão trivial sobre os perigos do Facebook.

Março 21, 2018

Um blog muito enfadonho

 

Sei bem que 22 anos não é idade para se perder tempo a comentar assuntos sérios. Contudo, um magnífico cocktail que mistura juventude, excesso de tempo livre e a empáfia de estudar em universidades britânicas com nomes pomposos que, por vezes, usamos em latim, permite-me a ilusão de que tenho coisas para dizer. E com a presunção com que nós, os jovens de hoje, abordamos qualquer assunto – qualquer issue –, não planeio fazer mais nada: vou mesmo escrevê-las. 

 

Não estou aqui para enganar ninguém. Desejo prevenir desde já o incauto cidadão daquilo a que me proponho: escrever sobre assuntos importantes (mas raramente entusiasmantes) suscitados pela actualidade, dando as minhas perspectivas, sem com isso acrescentar rigorosamente nada de relevante ao que é dito por outros comentadores mais experientes, mais sábios e mais inteligentes do que eu. O título deste post não é irónico. Esta será mesmo uma página aborrecedora.

 

Talvez a identidade deste blog resida precisamente nessa peculiar falta de propósito e interesse. A única razão por que este blog é escrito é que eu, o autor, posso fazê-lo. Não existe aqui sequer uma manifestação de amor à liberdade. Não, se eu não pudesse escrever este blog, não teria qualquer problema com isso. Este blog não é um uso orgulhoso dos meus direitos. É só o exercício da minha vontade. Que não é sequer uma vontade muito grande. Mas que, como sou guloso, gostava de satisfazer de qualquer maneira. 

 

Vou tentar. Bem-vindos ao Dorminhoco.